quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Deus do Novo Mundo

Bolas de fogo caem do sanguinolento céu, arrasando grandes cidades como se fossem pequenos e vulneráveis formigueiros! Bestas aladas sobrevoam o pouco que restou, caçando sua refeição e combustível para as chamas lançadas por suas bocarras fétidas e repletas de presas afiadas: humanos!
O caos dominou o mundo após o anúncio de que um jovem de peculiares olhos possuía incríveis poderes dignos de um deus! Ele era capaz de criar vida apenas com sua imaginação e uso da energia vital predominante  na atmosfera! Extraordinário poder logo atraiu o interesse dos governantes e o temor dos meros ignorantes cidadãos, que passaram a hostilizá-lo e denominá-lo como aquele que traria o apocalipse ao nosso mundo.
O confiante rapaz, ciente das consequências de tamanho abalo perante sua onipotência, decidiu não se entregar aos governantes e muito menos aos revoltosos cidadãos ao redor do mundo: decidiu isolar-se em um típico e pacato campo, cuja localização não é conhecida. Viveu lá durante alguns poucos anos, aprimorando e descobrindo novas habilidades e ligações entre elas e seus acinzentados olhos, até que o mundo resolveu que era hora de eliminá-lo!
No decorrer desses anos, os amedrontados governantes se uniram e criaram um único exército para impedir o tão temido e, segundo líderes de todas as crenças e religiões, inevitável fim dos tempos! E esse esforço para aliviar a tensão geral e dar sensação de alívio chamado Exército da Nova Terra descobriu a localização e atacou a morada do jovem no amanhecer daquele quente domingo.
Ao redor do globo, as pessoas acompanhavam , vidradas em seus televisores, a operação que as livraria do terror iminente. Ao exibirem as primeiras imagens da humilde choupana do jovem com poderes olímpicos*, as emissoras foram surpreendidas com perda de sinal e exibição de uma tela escura. O planeta ficou aflito e o caos foi geral. Mal sabiam as pessoas que tudo terminaria em um banho de sangue.
Algumas horas após a queda da transmissão televisiva, o chão se abriu na praia da maior capital do globo, e dele emergiu uma enorme parede de pedra. Logo o céu se tornou escarlate e dele caiu a primeira esfera flamejante. Por trás da monumental parede recém-erguida, uma nuvem de bestas aladas decolou rumo à cidade. No topo daquele enorme bloco de pedra, surgiu a sombra de um homem trajando uma antiga armadura, remetendo aos poderosos samurais, e segurando um cajado com grossas argolas penduradas na sua extremidade em forma de meia-lua. O mundo aprenderá com a dor da perda a finalmente viver em paz.

*Comparados aos poderes dos deuses que habitavam o Monte Olimpo.

P.S.: O homem deseja eliminar aquilo que teme, mesmo que aquilo não demonstre vontade ou necessidade de causar temor ao homem.
P.S.²: Personagem, poderes e ideologia claramente inspirados nos personagens Nagato (e seu pseudônimo Pain) e Rikudou Sennin (Eremita dos Seis Caminhos), do mangá Naruto, cuja autoria é de Masashi Kishimoto e de direitos pertencentes à Shonen Jump. Apenas uma postagem ficcional completamente inspirada naquilo que o autor tem acompanhado durante os anos.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Âmago do Fracasso

A criatividade deixa minha mente, escorre pelas minhas pálidas mãos e se evade ralo abaixo. A dor, e a impossibilidade de desabafá-la em meios outrora utilizados para tal, me sufoca, me aperta o pescoço como um assassino que silenciosamente invade um quarto em busca de sua vítima (propositadamente ou em decorrência de um infeliz encontro durante um furto).
Meus olhos já não possuem mais vitalidade e carisma, apenas uma camada esbranquiçada de lembranças agradáveis utilizadas como amenas cortinas que disfarçam a feiura de uma janela que já sofreu as ações do tempo.
O corpo está deformado em decorrência do desespero por um bem-estar temporário, que fora devorado aos montes em troca de poucos momentos de tranquilidade torpe. Deformada está, também, a capacidade de raciocínio lógico, tornado em pequenos pedaços de realidade e distorcidos blocos de fantasia e melancolia.
Conforme o tempo passa, mais certeza há de que tudo serviu apenas para transformar um homem em uma criança despedaçada, acuada em um canto do quarto e vociferando absurdos para que ninguém consiga se aproximar de sua enorme e sangrenta ferida. Mesmo assim, a alma infantil ainda consegue ver um pequeno raio de esperança no horizonte sombrio da vida.

P.S.: O desesperador motivo pela qual uma pessoa pode sumir da vida de várias outras é o mesmo que fará com que o ciclo de angústia jamais se extingua. 
P.S.²: Talvez eu me arrependa de postar algo tão íntimo. Mas, como sempre, talvez a mensagem não seja tão facilmente decifrada. A sorte está lançada.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

As Lágrimas De Deus

    O polêmico magnata Antoinne de Saritré fora chamado a uma estação de rádio para uma entrevista tão incômoda quanto sua língua ao tratar de assuntos como política e religião - ambos temas abordados em tal entrevista, e o bilionário chocou a todos ao dizer, dentre outras coisas, que possui fé mas, se pudesse, eliminaria os ditos líderes religiosos e derrubaria todos os luxuosos templos sem dó nem piedade.
    Em um momento da entrevista, um dos radialistas, esperando uma resposta preconceituosa, perguntou ao magnata se eliminaria os homossexuais da face da Terra. A resposta, transcrita abaixo, surpreendeu o mundo: 
"Jamais faria uma loucura desse tipo! Um dos motivos é minha bissexualidade! E antes que invente de perguntar algo mais ousado ainda, nem mesmo eliminaria os travestis! Se por acaso eu entrasse para a política, faria a regularização e eles poderiam fazer como as prostitutas em alguns lugares do mundo.
Isso não significa, portanto, que eu defenderia homossexuais acima de tudo! Assim como no meio dito "normal", há muitas pessoas de péssimo caráter nesse meio! Pessoas de má fé! E essas seriam presas como qualquer outra pessoa."
    (...)"Se Deus odeia os homossexuais? Creio que não. Acho mais fácil Ele odiar quem usa Seu nome para enganar as pessoas fracas mentalmente e torná-las como papagaios-zumbis, que só fazem perambular por aí repetindo a mesma baboseira sempre! Essas pessoas sim merecem levar uma porrada enquanto caminham pelas avenidas ou serem enforcadas em nome da moral e bons costumes! E eu já falei demais! Adeus!"
    E um dos homens mais ricos do mundo se levantou e saiu. Ao chegar à porta da rua, avistou algo inimaginável: seus seis seguranças estavam, cada um, acorrentados a uma pessoa diferente que, por sua vez, estavam conectadas pela cabeça a construções que remetiam a templos das mais diversas religiões.
  Os olhos dessas pessoas não traziam luz e vida, apenas escuridão e, como Antoinne descobriria logo em seguida, a morte. O polêmico e incansável senhor Antoinne de Saritré foi espancado ali mesmo pelos próprios seguranças, enquanto era humilhado e achincalhado em nome do deus de cada uma daquelas pessoas. Como já era um senhor no auge de seus 79 anos, não demorou muito a morrer e, assim que a vida deixara seus olhos, as doze pessoas e os seis templos arderam em alegria. E as pessoas se tornaram maiores, enquanto suas cabeças encolhiam e suas línguas profanas cresciam cada vez mais podres. Dos templos era possível ouvir o tilintar das inúmeras moedas que entravam e do cinzento e tristonho firmamento, caia uma fina chuva salgada como as lágrimas de dor de um pai ao ver seus amados filhos usando-o como instrumento da morte.

P.S.: Os espertos acorrentaram e amordaçaram Deus com suas línguas profanas e taparam os ouvidos dos idiotas para que não ouçam sequer suas abafadas súplicas de que a humanidade se torne boa.
P.S.²: Deus, que dizem ter criado a humanidade sua imagem e semelhança, jamais permitiria que alguém fosse julgado e que sua vida fosse tirada apenas por ser diferente dos demais. Talvez esse seja seu maior teste: a aceitação do diferente.
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domingo, 21 de agosto de 2011

O Fim - Relato

Não é nada fácil lidar com a certeza da morte, não é mesmo? Saber o dia exato em que eu, você e todos no planeta vão morrer é de enlouquecer qualquer um. Anteontem, na TV, nos foi noticiado que o mundo encontraria seu fim em três dias, que é o tempo necessário para que a Nuvem do Caos, como foi apelidada, chegasse à Terra. Na hora, achei que fosse alguma piada de muito mau gosto, mas desisti de achar isso quando me toquei de que era o presidente nos dando essa chocante notícia.
Logo após o pronunciamento do excelentíssimo, as emissoras vincularam alguns programas explicando sobre essa catástrofe e, mais tarde naquele mesmo dia, uma mensagem de adeus que é transmitida em todos os canais até hoje e o mundo mergulhou no mais profundo caos. Alguns vizinhos saíram gritando na rua, outros choraram, uns até mesmo comemoraram! À noite, todos estavam na rua bebendo, brigando, transando, se matando, saqueando bares e mercados. Apenas me tranquei em casa e dormi. Fiz isso duas vezes.
Hoje é a véspera do meu fim, do seu fim e do fim de toda humanidade. Vou pegar uma garrafa de uísque do meu pai e vou realizar um sonho: beber e tocar naquele piano que está salão da minha antiga escola. Confesso que não tocarei alegres canções, pois nunca gostei delas. Só espero não estar acordada quando tudo acontecer. Seria péssimo ter que ver aquela nuvem destruindo tudo até chegar em mim. Agora, se me der licença, tenho que ir realizar meu sonho. Aconselho que faça o mesmo, pois não terá uma próxima vez.

Relato da jovem de nome desconhecido, protagonista da postagem O Fim, de Novembro de 2009.

P.S.: O fim anunciado causaria a insanidade na maioria das pessoas, atiçaria o lado cruel em tantas outras e a apatia em algumas. Como reagiríamos ao saber do nosso próprio fim?
P.S.²: A "Nuvem do Caos" é aquela disseminada por um hoax de 2006, que teria sido descoberta pela NASA e que tem a capacidade de destruir tudo o que encontra pelo caminho.
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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Frio

E o garotinho se viu perdido a beira de um bosque, em meio à nevasca com somente sua capa marrom. O frio penetrava cada vez mais em seu pequeno corpo até chegar aos ossos; era questão de tempo para que tudo chegasse ao fim e mesmo assim, havia um brilho esperançoso em seus olhos miúdos graças ao vento, além da dúvida de como puderam deixá-lo ali, daquele jeito, naquela situação, mas essa questão era prontamente respondida por sua inocente mentalidade "Eu me perdi e estão me procurando! É isso! Eles todos estão logo mais à frente, no final desse caminho próximo ao bosque!".
Tendo finalmente chegado ao final da estrada coberta de neve, a constatação: Não havia ninguém ali. Havia somente um deserto gelado, escuridão e um aperto no peito. E mais uma vez uma pontinha de esperança: "Errei o caminho! Ou eles estão atrasados... É isso! Vou esperar bem aqui para não nos desencontrarmos!".
O tempo passou e ninguém apareceu. O frio já havia tomado conta de seu pequeno corpo e o sono mortal estava chegando. Ele então se deitou e fechou os olhos; ainda conseguiu sonhar com todos chegando e levando-o a um lugar quente e aconchegante, mas a imagem logo sumiu e deu lugar à escuridão eterna. Estava tudo finalmente acabado: ali jazia um corpo frio e abandonado à própria sorte, sem, entretanto, perder a esperança.


P.S.: Quantas vezes já não me senti um pequeno garoto esperançoso em um deserto gelado? 
P.S.²: A inspiração nem sempre aparece após um desabafo tão forte quanto a postagem anterior. Mas aos poucos ela dá seus sinais de que retornará.
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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Estranhas Metamorfoses (A Psicodelia de um Coração Partido)

Tantas mãos, tantas bocas, tantas faces, todas me agarrando, me tomando para si, me arrancando generosos pedaços, intensos suspiros, arrepios e calafrios em meio a escuridão. Não há mais roupas, nem defesas, nem pudor, sequer há alguma vontade nisso, há apenas o vazio e a sensação de incompleto.
Uma mão rasga-me o peito de dentro para fora; outra mão sai do mesmo lugar e termina de abrir a passagem! Olho para baixo: há apenas uma face risonha e ensangüentada, saída de meu tórax, que lambe os beiços para aproveitar cada gotícula de meu sangue. Agora ela se põe a gargalhar e começa a alargar a passagem para que seu corpo saia. É em vão: está preso a mim! Apenas uma pequena parte consegue se soltar, é o suficiente para que consigamos nos encarar de frente. Há um beijo. Amargo, mas há um beijo! Não há para onde correr!
Movimento inesperado: corpo partido ao meio! Uma das partes se põe a procurar outro peito para habitar, a outra continua dentro de mim, se tornando uma pequena cópia do outro corpo. Mas agora há espinhos perfurando minha carne. Outras mãos, outras faces, outras bocas, outros corpos almejando um espaço destruído apenas para roubar pedaços para remendarem o que já foi destruído por outras mãos, outras faces, outras bocas e outros corpos. Mas aquele pequeno corpo consegue evitar que levem tudo. Ele defende seu espaço, apesar de fazê-lo sangrar mais e mais; logo seus espinhos terão transpassado toda a carne.
Ajoelho-me no chão, apenas uma lágrima possui coragem o suficiente para rolar por cima dos ferimentos, fazendo o ardor tomar conta. Logo as luzes se acendem. Há concreto,  vidro, carne, luzes coloridas, faces conhecidas, dinheiro, aconchego. O tempo passa, as cicatrizes ficam, as feridas se vão, os espinhos encolhem.
E aquele meio corpo retorna, destruído, machucado, ensanguentado, mas com força suficiente para romper meu peitoral e voltar ao lar. As luzes se apagam, tudo recomeça; e há apenas um sorriso em meu rosto.


P.S.: Talvez o caminho mais feliz não seja o mais tranquilo ou o mais belo. Talvez seja aquele que temos mais medo.
P.S.²: Título inspirado na tradução do filme Xtro. Nunca o assisti, mas a tradução de seu título me soou interessante.
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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Curta 5: A Inveja

Uma dama de meia idade, amarrada nua a uma árvore. No começo gritos e esperneios, seguidos da desistência e acomodação. Apenas o silêncio respondia ao apelo cochichado. Quando finalmente decidira recomeçar a fuga, um enorme e faminto urso devorou-lhe da cintura para baixo. A mulher, por milagre ou maldição, sobreviveu mesmo assim, mas já não podia soltar-se das amarras, pois seria alvo fácil para toda sorte de predadores. Ela passou a viver amarrada a essa árvore, observando o mundo ao seu redor e o amaldiçoando por não poder mais desfrutar de sua liberdade. E passou, também, a ter pequenos animais carnívoros a mordiscar suas feridas. Toda sua vida poderia ter sido diferente se ela tivesse se esforçado mais.



P.S.: A inveja acaba sendo o resultado da acomodação, que nos faz ficar para trás e odiarmos quem não parou por sequer um segundo.
P.S.²: A imagem que me veio à cabeça é bem melhor que essa postagem. Mas gostei do mesmo jeito.
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