segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Silêncio

    A voz, outrora pomposa e rebuscada, foi tornando-se esculachada e grosseira. O corpo, antes esguio e preparado, tornou-se macilento e estático. Os cabelos, dourados e macios, estão se tornando escassos e duros. O sorriso, talvez não tão presente, se faz cada vez mais ausente.
   Os anos passaram, a dor continua, a esperança está lá cintilante como sempre, o arrebatador desespero cresce e se multiplica assustadoramente a cada segundo. Os sentimentos se misturam, criam compostos enegrecidos com suaves fios brilhantes. Tudo é uma enorme bagunça, tudo é crítico, tudo é apenas uma firme ilusão.
     Novas e incríveis gerações surgiram, cada vez mais espertas, cada vez mais interessantes e cada vez mais arrogantes e estúpidas. Os vislumbres do passado distante causam repulsa, fecham a cara, amargam a boca. Não sobrou nada daquele tempo. 
      Tantos devaneios, tantas histórias, tantas vontades guardadas eternamente dentro de uma carcaça que se deteriora com o caminhar dos ponteiros. Os gritos, os ecos, os destroços como estacas a destroçar a essência do que um dia foi um ser humano. Todas essas iguarias insossas armazenadas apenas no núcleo do ser, sem se revelaram ao mundo a não ser através de um olhar que grita por socorro, mas implora pra não ser ajudado. 


P.S.: (...)


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Alma(s)

E o peregrino seguiu finalmente à grande metrópole para encontrar com seu destino ainda incerto. Caminhou por centenas de pessoas, passou batido por milhares de histórias de diversos tipos, mas nada o interessava, nada o tocava. Estava blindado em angústia e ansiedade. Seu corpo trêmulo não se acalmava, estava inquieto e despejava o suor frio da dúvida: será mesmo que todo o percurso e seus obstáculos foram dignos do que estava por vir? Ou tudo não passava apenas de uma grande ilusão? Só aquele momento poderia responder com toda certeza.
Após algumas horas, o corpo já trêmulo e molhado estava inundado e ressoava com os objetos ao redor. Não conseguia se conter perante o desespero e o medo; só queria que aquele momento acabasse logo, que tudo se revelasse e que as certezas se jogassem aos seus pés de uma vez. Em meio a espera, dois rostos conhecidos surgiram. Dois anjos da guarda se revelaram em meio à multidão. Dois anjos inebriados com a missão de acalmar um ser em polvorosa. E o fizeram bem. Conseguiram arrancar sorrisos inimagináveis àquela situação. Conseguiram, também, diminuir o desespero da espera. E resolveram caminhar um pouco em meio a multidão despreocupada e alvoroçada, parando próximos a vendedores ambulantes e suas quinquilharias diversas e bizarras, apenas para observar o caminhar das centenas de pequenas e brilhantes almas que ali passavam. E ali ficaram um tempo.
Eis que era chegada a hora de encarar a verdade há tanto esperada! Não dava mais para esperar: ou tudo se mostrava verdade, ou tudo desmoronaria definitivamente! E, após um pequeno aviso, eis que todo o cenário se desmonta. As pessoas e os anjos, agora, não passavam de pequenos borrões imperceptíveis, assim como os prédios e as tranqueiras dos ambulantes. Não haviam mais cheiros, gostos, pensamentos e nem dúvidas: o destino vinha direto em sua direção. O peregrino, que há pouco não conseguia se conter e precisava realizar gestos constantes para tentar, em vão, se acalmar, estava estático. A única coisa que conseguia fazer era fitar o par de olhos brilhantes que vinham em sua direção.
Um abraço. O mais caloroso e acolhedor abraço que alguém poderia receber foi entregue àquele que chegou a duvidar do destino inúmeras vezes. Um abraço que não era merecido após tantas falhas grotescas, após tantas desilusões e tanta dor causada. Um abraço que demonstrou que o destino não era implacável, apenas brincou com com a ambição e perseverança. Um abraço que serviu para dizer: você, após tantos anos, finalmente encontrou aquilo que procurava. Não precisa mais andar pelos vales sombrios ou caçar desesperos. Não precisa mais se sentir incompleto, pois a outra metade de sua alma está aqui finalmente, te abraçando como jamais fostes abraçado. Você, peregrino, está completo. Vá e seja feliz com um só, na companhia de seus inúmeros anjos da guarda espalhados por seu país. E não tema: tudo dará certo!
O encontro de duas almas que se completaram. O mundo fazia algum sentido ao peregrino finalmente. Mas tiveram que se separar mais um pouco dias após. Há muito o que se fazer antes que a união se faça de fato. Mas o peregrino está disposto a esperar o tempo que for, não importando se terá que esperar até uma próxima vida. E assim, duas almas se mostram apenas uma em um mundo de desesperança. E assim a jornada começa.

P.S.: E assim, na espera, tudo vira uma deliciosa bagunça.
P.S.²: Bom voltar depois de muito tempo parado.
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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Álcool

Olhos fechados para visualizar melhor as lembranças de seu passado. Lágrimas que rolam pelo rosto agora enrugado e surrado. Um sorriso aqui, uma careta ali, tudo acontecendo novamente por debaixo das pálpebras de pele fina daquele solitário senhor, deitado em seu sofá de couro após uma tarde embebida em álcool. O resto de sol daquele dia entra pela janela e ilumina aquela pequena lágrima em seu caminho até o abismo entre a bochecha e o couro. A garrafa de uísque, agora vazia, está de pé próxima ao sofá, ao lado da mão de dedos grossos daquele homem.
Os olhos negros fitam os azuis daquele jovem rapaz. Risos ruborizados ecoam pela sala, seguidos do estalo de lábios insaciáveis um pelo outro. Roupas se vão, o pudor também e após várias horas de sussurros, gemidos e rangidos, ouve-se o debruçar de dois corpos ardentes em lençóis engruvinhados. Antes que qualquer coisa fosse dita, tudo se torna enevoado e os outrora apaixonados, se encontram discutindo, se agredindo e desiludindo: era o final de toda a esperança, o momento em que os olhos negros negaram o mergulho no azul profundo. O momento na qual o deus deu as costas a seu adorador. O instante em que o chão se abriu e o inferno se instalou na Terra. Em meio ao choro, os momentos de solidão passando como se estivessem em uma maratona, na qual o grande prêmio era segurar a mão fria e esquelética da ceifadora de almas. E ela esperava paciente, com um sorriso em seu pálido e magro rosto.
Olhos abertos. O senhor então senta-se e decide não mais lembrar do dia em que a escuridão que completava sua vida se foi. Tomou um banho, sentiu como se cada gotícula de água fosse uma agulha atravessando sua pele. As lembranças de como ele havia deixado aquilo acontecer o perseguem mesmo após tantos anos, e ainda doem como se tudo tivesse acontecido a poucos momentos. Agora ele passa os dias imaginando o que aconteceu e quem ilumina aqueles olhos escuros atualmente. Mais lágrimas, mais dor, mais vontade de apenas desaparecer. 
Ele está ajoelhado com suas mãos tapando o rosto enquanto as agulhas caem em suas costas. Uma brisa fria entra pela janela e uma presença é notada à sua frente: lá estava a guia para o outro mundo, com um sorriso aconchegante e a mão esperando para levantar aquele que já havia batalhado demais. Ele segurou sua mão, levantou e a seguiu para a luz mais reconfortante de todas. Ao fundo podia ver uma silhueta conhecida. Seu sorriso foi inevitável e, tomado pela sensação de ter seus vinte anos novamente, correu em direção a ela, a abraçou e nunca mais haveriam de se separar novamente, não importando de qual lado da vida fosse. E assim cumpriram o acordo por toda a existência.

P.S.: Promessas que deveriam ser cumpridas, mas sujeitas à aprovação de um superior. Talvez o ciclo envolva separações e dor, mas o amor prevalecerá.
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sonhos Intervalados

Observo-te ao longe sentado à mesa e rodeado de amigos e conhecidos nossos. Um olhar, todo entendimento. Um piscar, outro cenário. Burburinhos, silêncio. Pânico, apatia. Imprevisto. A noção de que algo está diferente. O perceber que não era para estar ali. A voz suprema, bem distante, questiona. Os coadjuvantes, antes principais, quebram o vínculo; apenas passeiam. Olhos estarrecidos encontram o profundo oceano negro. Paz. Por alguns segundos. Ironia. Sorriso sarcástico. Olhos que ameaçam afogar-me em uma mistura de conforto e deboche: talvez seja melhor assim. Um encontro silencioso de décadas em segundos. Dúvidas. Medo. Certeza.  O indestrutível resumido a escombros. Escuridão. O sol irrompendo da janela. Os olhos ardem. Uma lágrima. Uma revolta.  Apareça! Vamos! Não se esconda no meu refúgio! Saia daí! Nada. Apenas um quarto vazio. Somente dois corações despedaçados. Duas almas em busca uma da outra. Talvez à noite tenhamos um encontro melhor... Provavelmente não. Fecharei os olhos novamente. Nos encontramos lá, em nosso paraíso dos sonhos. 



P.S.: O mais confuso dos sentimentos se revela aos poucos, em intervalos de sonhos.
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O Futuro e o Enxofre

A flor por entre as rachaduras do cimento desabrocha esplendorosa, por entre a terra seca finca as raízes que serão nutridas pela água que se infiltrará através das precipitações e se esforça para erguer seu corpo e conseguir a tão incrível luz que a manterá viva e forte. Uma sobrevivente em meio ao caos e a poluição, uma guerreira silenciosa e sábia, um lembrete da própria terra de que ela passará por cima de nós e de nossa história para se manter soberana. Apenas um lembrete que cresce vagarosamente, com a paciência digna de um mestre que viveu muitos anos praticando a arte de seguir o tempo que for necessário para que tudo aconteça. 
O apocalipse desordenado é interrompido pela mais bela sinfonia da vida, quase como se tudo ao redor fosse parado ou tivesse apenas seu andar retardado por aquele sopro de esperança divino. A luz do dia se fixa naquele pequeno acontecimento; à noite, o espetáculo fica por conta da sensação de cascatas de faíscas, como em comemorações especiais em celebração a tudo que é mais belo. Ao entardecer, o sol poente lança seus últimos raios em saudação a nova vida que acaba de nascer. 
Um pé põe fim a toda esperança. Apenas um pé foi capaz de estraçalhar o mais belo lembrete de nossa criação. Um pé calçando um coturno surrado e imundo foi o responsável pelo retorno da sinfonia da destruição, dos violinos desafinados, dos trompetes sem fôlego, das flautas insanas e do maestro usando colônia de enxofre. Apenas um pé governado pela insensatez, um pé mal cuidado e emporcalhado. Apenas um pé despedaçou a última pétala de esperança por nossas almas. Apenas um pé, apenas um corpo, apenas um maltrapilho a serviço de criaturas obscuras em troca de uma soberania atribuída apenas ao maestro de tudo isso. Apenas nosso destino. 

P.S.: Caminhemos de cabeça erguida, assim não veremos em que estamos pisando.
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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Pandora e o Receptáculo: Um Rápido e Triste Fim

Pandora estava com a carta em mãos, paralisada eternamente naquele pesadelo. A lágrima escorreu por sua face petrificada e gotejou no chão. A implacável realidade, a verdadeira Medusa, finalmente a encarou. Estava só, vítima de seus próprios atos egoístas e vingativos, de sua língua bífida e de seu corpo apodrecido. A batalha para conquistar aquele que seria sua alma gêmea terminou em tragédia: a alma agora estava destroçada, esquartejada, esmigalhada, remontada e em nada lembrava aquela buscada inicialmente, tanto que seu receptáculo, outrora esguio e gracioso, estava macilento, aterrorizante, carrancudo e indesejável até mesmo pelos abutres! 
Aquela brava guerreira, forte em aparência e na escolha de palavras, cedeu, ajoelhou-se em prantos em frente ao enorme espelho de seu quarto. Não parava de questionar o por quê dessa derrota que, somente para ela, parecia tão repentina. Levantou-se, cambaleou até a robusta cômoda negra e pegou sua adaga de prata. Estava decidida: aquela alma antes tão desejada deveria ser destruída de uma vez por todas! 
Ao abrir a porta para cessar de vez os murros dados do lado de fora, a alma se viu apunhalada novamente em seu centro. A dor era tão intensa que ele urrou, lágrimas correram de seus olhos e seus joelhos desabaram. Pandora então se preparou para desferir mais um golpe quando foi surpreendida pelas mãos de sua vítima agarrando as suas, forçando-a a derrubar a adaga. Mesmo com a certeza de que estaria morto em poucos segundos, o agonizante macilento pegou a arma do chão e desferiu um golpe certeiro no coração de sua caçadora. Estava tudo terminado. Seus corpos jaziam juntos no escarlate hall de entrada. 
Uma história que começou tão bela e encantadora terminou como um massacre. Eles acreditavam que deveriam ficar juntos e assim foi feito. Não da maneira desejada, mas estavam agora eternamente unidos.


P.S.: Pandora, despertaste o caos no mundo novamente! Aliás, em dois pequenos mundos.
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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ciclos


O ciclo de amor e ódio, paraíso e inferno se mostra como em uma montanha russa sem hora para acabar. As amarras rompidas a força formam cachoeiras escarlates que desembocam em um oceano negro de amargor que, infelizmente, estás a se afogar. Tentas nadar para a praia mais próxima, mas de nada adianta se segues a maré pecaminosa que o conduz a alto mar. O espelho negro das águas reflete o oposto de tudo aquilo que sentes apenas para atraí-lo a uma armadilha mortal, tal qual as sereias fazem ao cantar para os marinheiros desavisados e descrentes. 
As vozes dos invocados das trevas o tentam, dizem com astúcia o que deves fazer, só não lhe dizem suas reais intenções. Vossas costas possuem adagas negras fincadas. Estas lhe sugam o resto de razão que outrora possuías aos montes. Sois agora como um boneco de pano jogado ao mar, encharcado, carregado pelas mãos fortes do oceano, servindo ao bel-prazer de toda espécie de criatura. Em pouco tempo, serás apenas um farrapo carregado pelas ondas até uma praia distante, para finalmente ser esquecido por todos aqueles que destruíram-lhe os sonhos, que desviaram-no do caminho para a felicidade e superação de sua própria escuridão, e serás lembrado eternamente por aqueles que tentaram remendar os rasgos, mas não pela beleza que um dia esbanjastes, mas pelo monstro que deixastes emergir em meio ao desespero.
A partir daqui serás apenas uma página virada no grande livro da vida. Uma página que começou com a esperança de que tudo seria diferente, mas no meio do caminho se tornou ilegível, desagradável e por fim encerrou-se de modo grosseiro, deixando o arrependimento por ter começado a lê-la como certeza irrevogável. Adeus, página chafurdada na imundície. Há muito já deveria ter sido virada. 

P.S: O ciclo encerra-se. Ao menos, é o que se espera. 
P.S.²: A falta de rancor e mágoa tornam-me um preguiçoso sem criatividade. 
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