terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Carta de um Cadáver

O trecho a seguir foi retirado de uma carta encontrada nas mãos de um suposto suicida. O começo da carta estava danificado demais e tornou-se ilegível. 

"(...)após todos esses anos, todas essas decepções, desventuras, desesperanças e punhais ardentes em minhas costas, eis que me isolo do mundo. Ah! Esse tão cruel mundo moderno, com sua tecnologia capaz de unir pessoas distantes e separar as próximas, unir dois corações em uma única parte e depois picotá-lo como se fosse um mero pedaço de papel nas mãos de uma criança e capaz, também, de criar pessoas cada vez mais frias, obscuras e tristes, incapazes de domar os próprios sentimentos. 
Talvez agora, alguns meses isolado, eu perceba o quão maravilhoso era esse mundo (e o quão perverso era também). As noites mal dormidas, a incrível falta de momentos sóbrios, as intrigas, as promiscuidades que não envolviam a conexão carnal em si, mas eram dignas de contos eróticos e bizarros, a filosofia embriagada de pessoas com a mente vazia da utilidade buscada pelas grandes empresas e lotadas das mais diversas formas de cultura inútil, todas essas características me despertaram um sentimento de nostalgia. 
Hoje sinto nostalgia, mas não aquela que parece dizer 'como foi bom esse tempo! Mas agora é hora de seguir em frente!' e sim aquela que me diz 'Esses foram momentos de sua vida. Olhe para trás enquanto pode, pois serão suas últimas lembranças!'. O futuro se mostra a mim como uma grande muralha negra, que não me permite enxergar sequer um pequeno filete de esperança. 
Minha cabeça está cada vez mais como uma grande orgia entre todos os pensamentos, onde um mero observador consegue ver o que se passa, mas não entende os detalhes por estarem confusos em meio a tantos braços, pernas, corpos, cabeças e ruídos. Sinto todas as noites como se fossem a última. Talvez essa realmente seja! Mas vou passá-la como tenho passado todas as outras, repousando a cabeça em meu surrado travesseiro. "

P.S.: E ele não mais se levantou. E, apesar da pouca idade, seu cadáver aparentava ser de alguém décadas mais velho. Talvez a vida tenha lhe sugado os últimos resquícios de juventude fazendo-o entendê-la antes da hora.
P.S.²: Voltando a escrever após um pequeno hiato. Dedos e mente enferrujados. Prometo melhoras.
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Espessa Janela

Enjaulado, preso em um pequeno cubo composto por barras de ferro grossas e esburacadas. Há apenas uma lâmpada que desce de uma das barras que compõem o "teto" dessa jaula, que está suspensa na escuridão.
O desespero de estar preso em uma pequena jaula em meio à escuridão é indescritível, talvez só não seja pior do que perceber que a cela está, de alguma forma, encolhendo! As barras começaram a ranger e a se movimentar vagarosamente em direção ao centro da jaula. Os gritos de desespero pareciam abafados: talvez a sala fosse preparada acusticamente para que os sons ficassem ali dentro, ou o desespero tampou-lhe os ouvidos.
Um leve cheiro de gás, uma fagulha e as barras estavam em chamas! Os orifícios que predominavam na jaula eram para acender o fogo! Apenas o chão não estava completamente em chamas. Mais desespero e logo após, conformidade... não havia escapatória! O cruel destino estava se aproximando ardentemente.
As luzes da enorme sala se acenderam. No centro, a jaula parecia uma grelha que acabara de deixar passar do ponto a carne do macabro churrasco. Nas paredes, janelas com um espesso vidro, onde podiam ser vistas pessoas passando indiferentes ao ocorrido, como se não pudessem ver aquele horror, mesmo que escancarado em sua frente.

P.S.: "Interessante essa filmagem sendo exibida nessa parede! Que rapaz bonito e alegre esse das imagens! Mas parece que há uma luz ao fundo... parece fogo! É, deve ser apenas algum defeito dessa tela. Ela é muito grossa para esse tipo de projeção."
P.S.²: Grite quão alto conseguir! Ponha seus pulmões no mundo, polua-os com a toxidade da atmosfera! Torne sua voz tão estridente que quebre todas as taças de cristal! Mas tome cuidado: volume e estridência não garantem que será ouvido!
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Último Suspiro

O mundo começa a se ver mergulhado em uma estranha epidemia de uma desconhecida e lentamente mortal doença, cujos principais sintomas são fadiga e leve grau de cegueira* (com visão embaçada, semelhante à miopia) no começo e extrema fraqueza e visão bastante comprometida em seu estágio final.
A doença começou em uma pequena cidade do interior e se espalhou pelo país, gerando um alerta global que conseguiu conter a enfermidade até certo momento, mas alguns casos isolados começaram a aparecer em outros países.
O primeiro infectado, um rapaz em torno de 25 anos de idade, agora está no estágio terminal da doença e se encontra no isolamento do principal hospital daquela pacata cidade. Além da extrema fraqueza, a tristeza o acomete e só faz com que sua hora final chegue mais rápido. Mas sua tristeza não é oriunda da morte iminente, e sim do então inevitável desfecho de sua vida, sem poder sequer ver uma pessoa em especial: aquela na qual trocou correspondências por vários anos e que, devido aos desencontros da vida, não pode conhecer pessoalmente, quanto mais realizar o sonho de tocar seus lábios no dela.
No começo do que certamente seria sua última semana, o rapaz acordou com um estranho vulto à sua frente, que logo imaginou ser um dos médicos, apesar de não ser possível a percepção das enormes roupas para evitar o contágio. O vulto se aproximou, abaixou até próximo à sua orelha e com a mais tênue e, para ele, deliciosa voz exclamou um emocionado "finalmente estou aqui a seu lado!". As lágrimas foram inevitáveis e seguidas de um caloroso abraço e, finalmente, o primeiro beijo de duas almas que deveriam ficar juntas até o final de suas vidas. E assim foi. Ao término daquele tão esperado beijo, a vida daquele rapaz se encerrou.
Ao contrário do que se imagina, a amada não desatou a chorar de dor pela perda. Apenas sentou-se ao lado daquele que nunca desistiu, segurou firme em sua mão e com um satisfatório sorriso sussurrou algo como "Após tanta luta, finalmente ficaremos juntos para sempre".


P.S.: Vida injusta e desencontrada que nos prepara para uma eternidade tão certa e perfeita.
P.S.²: Pode demorar o tempo que for: mas tudo isso só tende a crescer e a amadurecer cada vez mais.
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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Deus do Novo Mundo

Bolas de fogo caem do sanguinolento céu, arrasando grandes cidades como se fossem pequenos e vulneráveis formigueiros! Bestas aladas sobrevoam o pouco que restou, caçando sua refeição e combustível para as chamas lançadas por suas bocarras fétidas e repletas de presas afiadas: humanos!
O caos dominou o mundo após o anúncio de que um jovem de peculiares olhos possuía incríveis poderes dignos de um deus! Ele era capaz de criar vida apenas com sua imaginação e uso da energia vital predominante  na atmosfera! Extraordinário poder logo atraiu o interesse dos governantes e o temor dos meros ignorantes cidadãos, que passaram a hostilizá-lo e denominá-lo como aquele que traria o apocalipse ao nosso mundo.
O confiante rapaz, ciente das consequências de tamanho abalo perante sua onipotência, decidiu não se entregar aos governantes e muito menos aos revoltosos cidadãos ao redor do mundo: decidiu isolar-se em um típico e pacato campo, cuja localização não é conhecida. Viveu lá durante alguns poucos anos, aprimorando e descobrindo novas habilidades e ligações entre elas e seus acinzentados olhos, até que o mundo resolveu que era hora de eliminá-lo!
No decorrer desses anos, os amedrontados governantes se uniram e criaram um único exército para impedir o tão temido e, segundo líderes de todas as crenças e religiões, inevitável fim dos tempos! E esse esforço para aliviar a tensão geral e dar sensação de alívio chamado Exército da Nova Terra descobriu a localização e atacou a morada do jovem no amanhecer daquele quente domingo.
Ao redor do globo, as pessoas acompanhavam , vidradas em seus televisores, a operação que as livraria do terror iminente. Ao exibirem as primeiras imagens da humilde choupana do jovem com poderes olímpicos*, as emissoras foram surpreendidas com perda de sinal e exibição de uma tela escura. O planeta ficou aflito e o caos foi geral. Mal sabiam as pessoas que tudo terminaria em um banho de sangue.
Algumas horas após a queda da transmissão televisiva, o chão se abriu na praia da maior capital do globo, e dele emergiu uma enorme parede de pedra. Logo o céu se tornou escarlate e dele caiu a primeira esfera flamejante. Por trás da monumental parede recém-erguida, uma nuvem de bestas aladas decolou rumo à cidade. No topo daquele enorme bloco de pedra, surgiu a sombra de um homem trajando uma antiga armadura, remetendo aos poderosos samurais, e segurando um cajado com grossas argolas penduradas na sua extremidade em forma de meia-lua. O mundo aprenderá com a dor da perda a finalmente viver em paz.

*Comparados aos poderes dos deuses que habitavam o Monte Olimpo.

P.S.: O homem deseja eliminar aquilo que teme, mesmo que aquilo não demonstre vontade ou necessidade de causar temor ao homem.
P.S.²: Personagem, poderes e ideologia claramente inspirados nos personagens Nagato (e seu pseudônimo Pain) e Rikudou Sennin (Eremita dos Seis Caminhos), do mangá Naruto, cuja autoria é de Masashi Kishimoto e de direitos pertencentes à Shonen Jump. Apenas uma postagem ficcional completamente inspirada naquilo que o autor tem acompanhado durante os anos.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Âmago do Fracasso

A criatividade deixa minha mente, escorre pelas minhas pálidas mãos e se evade ralo abaixo. A dor, e a impossibilidade de desabafá-la em meios outrora utilizados para tal, me sufoca, me aperta o pescoço como um assassino que silenciosamente invade um quarto em busca de sua vítima (propositadamente ou em decorrência de um infeliz encontro durante um furto).
Meus olhos já não possuem mais vitalidade e carisma, apenas uma camada esbranquiçada de lembranças agradáveis utilizadas como amenas cortinas que disfarçam a feiura de uma janela que já sofreu as ações do tempo.
O corpo está deformado em decorrência do desespero por um bem-estar temporário, que fora devorado aos montes em troca de poucos momentos de tranquilidade torpe. Deformada está, também, a capacidade de raciocínio lógico, tornado em pequenos pedaços de realidade e distorcidos blocos de fantasia e melancolia.
Conforme o tempo passa, mais certeza há de que tudo serviu apenas para transformar um homem em uma criança despedaçada, acuada em um canto do quarto e vociferando absurdos para que ninguém consiga se aproximar de sua enorme e sangrenta ferida. Mesmo assim, a alma infantil ainda consegue ver um pequeno raio de esperança no horizonte sombrio da vida.

P.S.: O desesperador motivo pela qual uma pessoa pode sumir da vida de várias outras é o mesmo que fará com que o ciclo de angústia jamais se extingua. 
P.S.²: Talvez eu me arrependa de postar algo tão íntimo. Mas, como sempre, talvez a mensagem não seja tão facilmente decifrada. A sorte está lançada.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

As Lágrimas De Deus

    O polêmico magnata Antoinne de Saritré fora chamado a uma estação de rádio para uma entrevista tão incômoda quanto sua língua ao tratar de assuntos como política e religião - ambos temas abordados em tal entrevista, e o bilionário chocou a todos ao dizer, dentre outras coisas, que possui fé mas, se pudesse, eliminaria os ditos líderes religiosos e derrubaria todos os luxuosos templos sem dó nem piedade.
    Em um momento da entrevista, um dos radialistas, esperando uma resposta preconceituosa, perguntou ao magnata se eliminaria os homossexuais da face da Terra. A resposta, transcrita abaixo, surpreendeu o mundo: 
"Jamais faria uma loucura desse tipo! Um dos motivos é minha bissexualidade! E antes que invente de perguntar algo mais ousado ainda, nem mesmo eliminaria os travestis! Se por acaso eu entrasse para a política, faria a regularização e eles poderiam fazer como as prostitutas em alguns lugares do mundo.
Isso não significa, portanto, que eu defenderia homossexuais acima de tudo! Assim como no meio dito "normal", há muitas pessoas de péssimo caráter nesse meio! Pessoas de má fé! E essas seriam presas como qualquer outra pessoa."
    (...)"Se Deus odeia os homossexuais? Creio que não. Acho mais fácil Ele odiar quem usa Seu nome para enganar as pessoas fracas mentalmente e torná-las como papagaios-zumbis, que só fazem perambular por aí repetindo a mesma baboseira sempre! Essas pessoas sim merecem levar uma porrada enquanto caminham pelas avenidas ou serem enforcadas em nome da moral e bons costumes! E eu já falei demais! Adeus!"
    E um dos homens mais ricos do mundo se levantou e saiu. Ao chegar à porta da rua, avistou algo inimaginável: seus seis seguranças estavam, cada um, acorrentados a uma pessoa diferente que, por sua vez, estavam conectadas pela cabeça a construções que remetiam a templos das mais diversas religiões.
  Os olhos dessas pessoas não traziam luz e vida, apenas escuridão e, como Antoinne descobriria logo em seguida, a morte. O polêmico e incansável senhor Antoinne de Saritré foi espancado ali mesmo pelos próprios seguranças, enquanto era humilhado e achincalhado em nome do deus de cada uma daquelas pessoas. Como já era um senhor no auge de seus 79 anos, não demorou muito a morrer e, assim que a vida deixara seus olhos, as doze pessoas e os seis templos arderam em alegria. E as pessoas se tornaram maiores, enquanto suas cabeças encolhiam e suas línguas profanas cresciam cada vez mais podres. Dos templos era possível ouvir o tilintar das inúmeras moedas que entravam e do cinzento e tristonho firmamento, caia uma fina chuva salgada como as lágrimas de dor de um pai ao ver seus amados filhos usando-o como instrumento da morte.

P.S.: Os espertos acorrentaram e amordaçaram Deus com suas línguas profanas e taparam os ouvidos dos idiotas para que não ouçam sequer suas abafadas súplicas de que a humanidade se torne boa.
P.S.²: Deus, que dizem ter criado a humanidade sua imagem e semelhança, jamais permitiria que alguém fosse julgado e que sua vida fosse tirada apenas por ser diferente dos demais. Talvez esse seja seu maior teste: a aceitação do diferente.
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domingo, 21 de agosto de 2011

O Fim - Relato

Não é nada fácil lidar com a certeza da morte, não é mesmo? Saber o dia exato em que eu, você e todos no planeta vão morrer é de enlouquecer qualquer um. Anteontem, na TV, nos foi noticiado que o mundo encontraria seu fim em três dias, que é o tempo necessário para que a Nuvem do Caos, como foi apelidada, chegasse à Terra. Na hora, achei que fosse alguma piada de muito mau gosto, mas desisti de achar isso quando me toquei de que era o presidente nos dando essa chocante notícia.
Logo após o pronunciamento do excelentíssimo, as emissoras vincularam alguns programas explicando sobre essa catástrofe e, mais tarde naquele mesmo dia, uma mensagem de adeus que é transmitida em todos os canais até hoje e o mundo mergulhou no mais profundo caos. Alguns vizinhos saíram gritando na rua, outros choraram, uns até mesmo comemoraram! À noite, todos estavam na rua bebendo, brigando, transando, se matando, saqueando bares e mercados. Apenas me tranquei em casa e dormi. Fiz isso duas vezes.
Hoje é a véspera do meu fim, do seu fim e do fim de toda humanidade. Vou pegar uma garrafa de uísque do meu pai e vou realizar um sonho: beber e tocar naquele piano que está salão da minha antiga escola. Confesso que não tocarei alegres canções, pois nunca gostei delas. Só espero não estar acordada quando tudo acontecer. Seria péssimo ter que ver aquela nuvem destruindo tudo até chegar em mim. Agora, se me der licença, tenho que ir realizar meu sonho. Aconselho que faça o mesmo, pois não terá uma próxima vez.

Relato da jovem de nome desconhecido, protagonista da postagem O Fim, de Novembro de 2009.

P.S.: O fim anunciado causaria a insanidade na maioria das pessoas, atiçaria o lado cruel em tantas outras e a apatia em algumas. Como reagiríamos ao saber do nosso próprio fim?
P.S.²: A "Nuvem do Caos" é aquela disseminada por um hoax de 2006, que teria sido descoberta pela NASA e que tem a capacidade de destruir tudo o que encontra pelo caminho.
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